Salmo 16: A teologia da satisfação

Neste salmo, temos diante de nós uma pessoa satisfeita. Não sabemos se o salmista tinha bens e riquezas ou se tudo estava indo muito bem na sua vida diária, mas não há como negar que essa oração registra uma satisfação imensa de alguém que considerava Deus o seu maior bem: “Tu és o meu Senhor; além de ti não tenho outro bem” (v.2). Por quantas dificuldades poderia estar passando o salmista no momento em que escreveu essa oração? Ainda que não seja possível descobrir a resposta para essa pergunta, a poesia mostra que a alegria do salmista era transbordante (v.9) simplesmente pelo fato de ter e de pertencer a Deus, não pelo que tinha ou pelas circunstâncias que o cercavam.

Senhor, tu és a porção da minha herança e do meu cálice; és tu quem garante o meu destino” (v.5)

Talvez muitos dos meus leitores não conheçam Deus e não façam muita questão de pertencer a Ele (e de tê-lo como bem maior). Não é possível, contudo, ignorar as afirmações tão belas e cheias de significado que este autor faz sobre a alegria que é estar com Deus. Só existem duas conclusões ao lermos as palavras do poeta: ou ele é uma pessoa louca ou teve uma experiência com esse Deus. Uma experiência que o transformou na pessoa mais segura do mundo. Afinal, quem tem a certeza de que nunca será abalado a não ser aquele que tem sempre o Senhor diante dele? (v.8).

Muitos anos separam a composição deste salmo da vida que o apóstolo Paulo viveu dedicada a Jesus, mas é de sua autoria algumas das palavras mais fortes sobre o que é estar satisfeito somente pelo fato de servir a Deus:

…já aprendi a estar satisfeito em todas as circunstâncias em que me encontre. Sei passar necessidade e sei também ter muito; tenho experiência diante de qualquer circunstância e em todas as coisas, tanto na fartura como na fome; tendo muito ou enfrentando escassez. Posso todas as coisas NAQUELE QUE ME FORTALECE” (Filipenses 4.11-13)

 Entenda, minha intenção aqui (e também do salmista) não é de afirmar que se você não vive diante de Deus o tempo todo, não terá momentos de alegria. É certo que o mundo que o Criador fez esta cheio de belas coisas e momentos que nos deixam felizes. Contudo, a intenção do salmista (e minha também, é claro) é registrar, por meio de uma oração, que na presença do Senhor existe alegria plena! Somente quem um dia foi alcançado pelo amor e graça de Cristo sabe o que é ser feliz eternamente, independente das circunstâncias, já no tempo presente!

“Tu me farás conhecer o caminho da vida; na tua presença há plenitude de alegria; à tua direita há eterno prazer” (v.11)

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Salmo 15: Uma teologia inabalável

As últimas palavras do salmo revelam que é possível ter uma teologia inabalável: “Aquele que agir assim nunca será abalado” (v.5b). Que modo de pensar e viver é esse que traz tanta segurança para quem o pratica? Ou, que teologia é essa que nada pode desestruturá-la? É possível ter uma vida tão segura assim?

Os estudiosos afirmam que este salmo revela um costume do Oriente Médio, no qual um peregrino adorador pergunta ao porteiro quais são as condições para entrar e adorar a Deus no santuário. E então um levita ou sacerdote responde com as palavras dos versículos 2 a 5.[1] Contudo, a poesia do salmo 15 começa perguntando sobre quem pode habitar no tabernáculo do Senhor e não apenas sobre uma visita. Significa que o desejo do salmista era permanecer, ficar firme, ter uma vida constante na presença de Deus.

A resposta que encontramos para o desejo do salmista pode ser resumida pelo versículo 2: Aquele que deseja habitar na presença de Deus é “aquele que vive com integridade, pratica a justiça e fala a verdade de coração”. Essas condições exigidas por um Deus santo não significam apenas que os que se aproximam dEle não devem ter pecados, pois sabemos que é o próprio Deus quem nos perdoa os erros (1 João 1.9). Antes, essas palavras significam que, para ter uma vida inabalável é necessário ser íntegro (autêntico, inteiro, completo), praticar a justiça e ser verdadeiro (sincero, até mesmo com suas falhas). Certamente, quem deseja estar com Deus, sabe que sua Santidade transforma o nosso interior e cada dia ouvindo e aprendendo sobre Deus cria um caráter íntegro, como o descrito neste salmo (Romanos 6.22; 2 Coríntios 7.11).

O modo de viver descrito no versículo 2 encontra paralelo no livro do profeta Miqueias (6.8) e nas palavras do próprio Jesus (Mateus 5.1-12 e 23.23). Tanto o profeta do Antigo Testamento como Jesus defendem uma importância maior da integridade, da justiça e da misericórdia como requisitos para servir ao Senhor, colocando regras e rituais como secundários na vida com Deus. Na verdade, as especificações dos versículos 2 a 5 falam de cuidados para com o próximo: viver com justiça, não difamar, não fazer o mal, não caluniar, honrar os que temem a Deus, não emprestar o dinheiro visando o lucro…

Sabemos que a salvação é pela graça e pela fé, e que ela não depende dos esforços humanos em serem boas pessoas. Contudo, sabemos que a fé produz frutos que devem ser buscados e colocados em prática. Ou seja, nossas boas obras (ou bons comportamentos) não nos salvam, mas a nossa salvação gera boas obras e um bom caráter, “pois fomos criados em Cristo para as boas obras, previamente preparadas por Deus para que andássemos nelas” (Efésios 2.8-10). É preciso salientar que, apesar de eu ter puxado o assunto, a intenção aqui não é falar de salvação, mas sobre a vida com Deus. E esta possibilita que tenhamos uma visão de mundo robusta, onde a vida com Deus e com o próximo é coerente com a santidade do Senhor. Esta é uma teologia inabalável!

Aquele que agir assim nunca será abalado” (v. 5b)


[1] BRUCE, 2009, p.776.

Salmo 14: A teologia ateísta

 

 Todos nós fazemos teologia. Todos possuímos nossa própria teologia de vida. Alguns tomam como ponto de partida de que o deus que tudo criou é YAHWEH, descrito na Bíblia, que enviou seu Filho Jesus para resgatar a humanidade pecadora. Outros, contudo, entendem que o mundo que vivemos não passa de uma ilusão, um universo fragmentado que deve retornar à Unidade (O Um) por meio de reencarnações. Também existem aqueles que compreendem um universo sem deus, surgido por um acaso, por motivo algum. Sim, isso também é uma teologia: a teologia do “não há Deus”!

Aos crentes da teologia ateísta o salmista dá o nome de insensatos (v.1), palavra que em hebraico tem o significado não de alguém que simplesmente não acredita em Deus porque foi mal orientada nas verdades bíblicas, mas de alguém que conscientemente decidiu viver longe dos princípios de vida ensinados por Ele.[1] Toda teologia serve de base para nosso modo de viver: atitudes morais, éticas, modo de se relacionar, de perdoar, de amar… A teologia de alguém é a sua cosmovisão, ou visão de mundo, e alguém que decidiu não olhar o mundo pela visão de Deus está certamente perdida. Por isso, o salmo 14 (que não é um lamento comum de um israelita) chama de insensato quem não acredita em Deus, pois sem uma teologia correta, nossas escolhas diárias podem ser completamente erradas.

Neste momento, alguém que se diz crente pode estar se gabando de não ser um tolo segundo as ideias do salmista, simplesmente porque está identificado na sociedade como um cristão ou como alguém que tem fé em um deus. Contudo, o autor dessa poesia não estava pensando só nos que se declaram ateus, mas também naqueles que agem como se o modo de ver o mundo e de viver sua vida estivesse pautado numa teologia incorreta, isto é, de que Deus não existe. Você pode pensar e dizer que acredita na teologia cristã, mas, ainda assim, viver uma teologia ateísta, onde todas as suas atitudes são executadas sem considerar os princípios de Cristo. Quantos cristãos não conhecemos que, ao saírem dos templos nos finais de semana, são corruptos, intolerantes, indiferentes, violentos, sem autocontrole, preconceituosos, fofoqueiros e tantas outras coisas que não condizem com uma teologia de fato cristã. Na teoria são cristãos, na prática são ateus.

Talvez alguns ateus protestem, dizendo que praticar coisas erradas não tem nenhuma ligação com a visão de um mundo sem Deus. Eu terei de concordar que muitas pessoas que não possuem uma religião promovem boas ações, mas devo explicar que minha intenção é apontar para o fato de que uma teologia de fato cristã é formada por princípios pautados na bondade, na justiça e no amor de Deus[2], o que faz com que qualquer um que de fato acredite nEle tenha atitudes que reflitam essa teologia. Contudo, uma teologia ateísta não possui um padrão ou uma fonte definida para uma moral e ética padronizadas, o que faz com que essa cosmovisão seja mais frágil e menos consistente, já que está completamente aberta e livre de princípios e doutrinas específicas.

A lição devocional do salmo, portanto, é a de que viver sem Deus (ou como se Deus não existisse) pode nos tornar pessoas perdidas, sem rumo e sem amor:

O insensato diz no seu coração: Deus não existe. Todos se corrompem e praticam abominações; não há quem faça o bem” (v.1).


[1] KIDNER, 1980, p.95; BRUCE, 2000, p.776.

[2] É claro que isso é uma síntese muito pequena.

Salmo 13: A teologia do esquecimento de Deus

Assim como o rei Davi, muitas vezes sentimos como se Deus tivesse se esquecido de nós. E nos perguntamos: “Até quando, Senhor? Tu te esquecerás de mim para sempre? Até quando esconderás o rosto de mim?” (v.1). Questionamos a Deus pelo fato de nos sentirmos perdidos, sem saber o que fazer, enfraquecidos pelos nossos inimigos. Nada parece dar certo, nada de novo acontece e já podemos ver os inimigos zombando de nós pela derrota.

Sabemos que Israel era uma nação que vivia em guerra, colecionando diversos inimigos no decorrer da história. Contudo, ainda que os salmistas se dirijam aos seus inimigos humanos, desejando a derrota deles, os cristãos sabem que a ordem de Jesus é de amar os inimigos (Mateus 5.43-48). Por isso, não trataremos da palavra “inimigo” do v.4 como um inimigo humano, pois devemos amá-lo. Antes, voltemos nossa atenção para os inimigos que mantemos vivos dentro de nós: preguiça, orgulho, ambição, egoísmo, indiferença, ódio, desamor, falta de perdão e misericórdia etc. Quantas vezes não sentimos que estamos sendo dominados por esses inimigos? Nossos sentimentos e pensamentos mais sombrios parecem nos atacar e zombar de nós. Oramos a Deus, mas parece que nada muda: “Até quando, Senhor?”.

Talvez esse salmo e essa reflexão se encaixem para alguns numa situação mais cotidiana, como dificuldade financeira, sofrimentos físicos ou uma oração não respondida, na qual muitas vezes não vemos uma ação ou direção vindas de Deus. Mas quero falar com aqueles que hoje enfrentam um silêncio estranho de Deus, enquanto sua vida parece sufocada pelos seus inimigos mais íntimos: seus próprios pecados! Estas palavras, que não tem intenção de resolver seus problemas (nenhuma devocional diária tem essa intenção!), são direcionadas a você que está angustiado e sufocado por ainda possuir tantos pensamentos e sentimentos pecaminosos.

 “Até quando relutarei dia após dia, com tristeza em meu coração? Até quando o meu inimigo (eu mesmo) se exaltará sobre mim?” (v.2).

Nós nos perguntamos “até quando eu continuarei assim: cedendo aos meus inimigos interiores? Deus me ajude!”. A verdade é que, honestamente e humildemente, não tenho respostas prontas para explicar o aparente esquecimento de Deus. Mas é fato que diversos personagens bíblicos e também modernos viveram a mesma situação. E, ainda que você se sinta triste e desanimado, o salmista deixa uma dica de esperança, mesmo diante de tamanho desespero: ainda que Deus esteja em silêncio, confie na misericórdia dEle e se alegre na salvação e no livramento que Ele certamente te dará em breve. Continue fiel a Deus, pois enquanto você sente que Ele não te escuta, sua bondade ainda está sobre você:

Mas eu confio na tua misericórdia; meu coração se alegra na tua salvação. Cantarei ao Senhor, porque ele me tem feito muito bem” (v.5-6).

Salmo 12: A teologia da decepção

 

A oração do salmista escancara o coração de alguém que está decepcionado com o ser humano e a sua capacidade de faltar com a verdade: “Cada um mente ao seu próximo; fala com lábios bajuladores e coração fingido” (v.2). Quem escreveu este salmo, parece ter sido enganado tantas vezes que chega ao ponto de duvidar da existência de pessoas verdadeiras no mundo (v.1). O que parece prevalecer no mundo é um tipo de pessoa que não se preocupa com as consequências do que diz, como se Deus não estivesse atento (v.4).

Contudo, o poeta sabe que, apesar de os seres humanos serem muitas vezes não confiáveis, existe um ser que nunca mente: “As palavras do Senhor são puras, como prata refinada numa fornalha de barro purificada sete vezes” (v.6). Se por um lado as pessoas mentem e nos enganam o tempo todo, decepcionando cada gota de confiança que depositamos sobre elas; do outro está o próprio Deus, que nunca deixa de cumprir as suas promessas (que deixou para nós nas Escrituras) e jamais nos abandona. Veja, por exemplo, o que ele disse para um de seus servos mais fiéis: “Esforça-te e sê corajoso; não tenhas medo, nem te assustes; porque o Senhor, teu Deus, está contigo, por onde quer que andares” (Josué 1.9).

Em um momento desafiador, as palavras de Deus a Josué ficaram guardadas em seu coração. Com certeza ele levou consigo aquela promessa, até o final de sua vida. E ele comprovou a veracidade e a fidelidade de Deus até o fim, tanto que disse, depois de tanto tempo: “Eu e minha cada cultuaremos o Senhor” (Js 24.15), desafiando a todo o povo a fazer o mesmo!

É claro que não precisamos ser tão radicais a ponto de não confiarmos em ninguém. As palavras do salmista no primeiro versículo são poéticas e expressam os sentimentos mais intensos em um momento de decepção. Mas, também fica claro que a nossa confiança total pode ser depositada somente nas Palavras de Deus. Suas promessas de vida, perdão, paz, salvação e proteção devem estar sempre guardadas em nosso coração, afinal, Deus nunca mente.

Salmo 11: A teologia do refúgio

Quando os fundamentos são destruídos, que pode fazer o justo?” (v.3)

Em um certo momento da vida de Davi, o qual não sabemos ao certo o que estava acontecendo, algumas pessoas próximas a ele estavam sugerindo que a solução para se livrar do mal era “fugir para o monte”! Os versículos 2 e 3 sugerem que era um tempo de violência contra pessoas honestas e que os fundamentos (as leis de Deus) estavam sendo atacados.[1] O que fazer quando as coisas não vão bem? Para onde ir, quando seus amigos apresentam diversas soluções para o seu problema, até mesma a de fugir para longe?

Apesar de sugerirem a fuga, o salmista sabia que a melhor opção não era fugir: “Eu me refugio no Senhor!” (v.1). Ele entendia que o homem ou a mulher que conhece a Deus não tem outra opção mais segura do que se refugiar e procurar abrigo debaixo das asas do Único que é capaz de nos proteger do mal:

“Ele o cobrirá com as suas penas, e sob as suas asas você encontrará refúgio; a fidelidade dele será o seu escudo protetor.” (Salmo 91.4)

Tudo isso parece fácil, mas não é. Nós sempre nos achamos autossuficientes e capazes de encontrar a melhor saída para nossos problemas e acabamos deixando de lado o fato de que Deus é suficiente e poderoso para nos ajudar e nos guiar para o melhor caminho, nos protegendo de qualquer perigo. Com o Senhor estamos um milhão de vezes mais seguros do que quando fugimos usando nossa própria inteligência para solucionar problemas.

Houve alguém na história que entendeu perfeitamente o quanto nós, seres humanos, somos limitados sem Deus. O seu nome é Pedro, um dos discípulos de Jesus, e nós podemos aprender com ele. Enquanto algumas pessoas estavam deixando de seguir o mestre, o próprio Cristo perguntou aos seus discípulos: “Vós também não quereis retirar-vos?”. Pedro, contudo, respondeu: “Senhor, para quem iremos? [Só] Tu tens as palavras de vida eterna” (João 6.67-68).  Portanto, não há motivos para fugir, somente razões para se refugiar em Deus!


[1] “O que pode fazer a pessoa honesta quando as leis e os bons costumes são desprezados?” (tradução da NTLH par ao versículo 3)

Salmo 10: O Orgulhoso e o Humilde

Os estudiosos afirmam que este salmo faz parte do anterior, formando um só salmo.[1] Enquanto a primeira parte, encontrada no Salmo 9, traz a confiança e dependência do autor quanto à justa ação de Deus contra os opressores e a favor dos oprimidos (v.1-4, 7-10 e 16-20), a continuação que lemos no salmo 10 é uma oração de apelo para que Deus se levante contra a arrogância do ímpio (v.12-13).

Quero, contudo, direcionar a reflexão deste salmo para a contraposição que o salmista faz entre o orgulhoso e humilde. Aparentemente, a intenção do salmista era demonstrar ao povo de Israel que Deus não deixaria passar em branco toda maldade realizada pelos ímpios contra os oprimidos, pois Ele estava atento à toda arrogância demonstrada por eles (v.16-18). Mas, por meio dessa oração é possível identificar a diferença entre as pessoas orgulhosas e aqueles que são humildes.

Segundo o salmista, as pessoas orgulhosas tratam seus semelhantes como inferiores, pois “perseguem o pobre com fúria” (v.2). Nenhum de nós discordaria dessas palavras, já que vemos, o tempo todo, pessoas “atropelando” as outras para avançar no trabalho, na faculdade, no governo e até mesmo na igreja. Os orgulhosos usam suas habilidades para prejudicar os outros, em busca do seu sucesso, ao invés de usar os dons para servir e beneficiar aqueles que o rodeiam.

Além de desprezar seus próprios semelhantes, o orgulhoso também desdenha e abandona o seu Criador, se colocando no lugar dele. A pessoa que “se orgulha de sua própria cobiça” (v.3) não busca a Deus e “Deus não está em nenhum de seus planos” (v.4). Ora, se alguém despreza o seu semelhante, facilmente deixará de lado aquele que lhe é estranho, diferente e mais forte do que Ele, pois “quem não ama seu irmão, a quem viu, não pode amar a Deus, a quem viu” (1 João 4.20). O orgulhoso pode até afirmar que ama a Deus, mas suas palavras são testadas pelas suas atitudes para com o seu irmão! Isso mesmo! É possível que alguém diga ser religioso e adorador do Senhor, mas se encaixe na descrição do versículo 4: alguém que, apesar de falar de Deus, não O coloca em nenhum de seus planos terrenos. Ou seja, Deus está em seus lábios, mas nunca em sua vida!

Para o salmista, o orgulhoso ainda se sente mais forte do que é, imaginando que nada dará errado em seus planos e que nunca será abalado (v.6). Ele pensa até mesmo que Deus não fará nada em relação às suas atitudes, “e diz a si mesmo: Deus se esqueceu; cobriu o rosto e nunca verá isto” (v.11).

O humilde, contudo, é discreto até mesmo na descrição feita pelo autor. Para ele, as únicas características dos que demonstram humildade é a entrega e a confiança que eles têm em Deus:

“O indefeso se entrega a ti; tu és o amparo dos órfãos” (v.14b)

Quando está diante de qualquer dificuldade, o arrogante ignora Deus e acha que pode resolver sozinho. O humilde, pelo contrário, chama a quem reconhece como mais forte, o próprio Deus: “Levanta-te, Senhor; ó Deus, levanta tua mão; não te esqueças dos necessitados” (v.12).

E a recompensa para esses dois tipos de pessoas também é diferente. Enquanto o orgulhoso recebe condenação (v.15), aqueles que se entregaram verdadeiramente e humildemente à dependência de Deus, recebem conforto no coração. Pois o Senhor ouve os desejos dos humildes! (v.17). E que fique claro: se alguém se orgulha de sua humildade, nunca a possuiu!


[1] Para entender melhor, ver: 

BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2009, p.772

e

KIDNER, Derek. Salmos 1-72: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão. 1980, p.84.