Pastor Dietrich Bonhoeffer escreveu para os crentes brasileiros (ainda sobre o caso Daniela Araújo)

Os trechos a seguir foram retirados do livro Discipulado,  escrito pelo alemão Dietrich Bonhoeffer.  Além de ter sido pastor luterano e teólogo, Bonhoeffer foi preso em 1943 por participar de um motim para assinar Hitler.  Após dois anos preso, foi enforcado em 1945 pelos nazistas.

Sobre a cruz que os discípulos de Jesus devem carregar:

“…porque Cristo sofreu pelos pecados do mundo, porque recaiu sobre ele todo o fardo da culpa, e porque ele partilha com seus discípulos o fruto de seu sofrimento, também têm de recair sobre os discípulos a tentação e o pecado, que os cobrem de grande vergonha e os expulsam, como bodes expiatórios, para fora dos portões da cidade. Dessa maneira, o cristão toma sobre si o pecado e a culpa de todos os seres humanos. O cristão não suportaria o peso desse fardo se não recebesse, ele próprio, a graça daquEle que tomou sobre si todos o pecados. A única forma de o cristão suportar os pecados que recaem sobre ele é perdoando-os, mas só o poder da Paixão de Cristo torna isso possível. O cristão toma sobre si o fardo de outros – ‘Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo’ (Gálatas 6.2). Assim como Cristo leva nosso fardo, levemos o fardo de nossos irmãos; essa lei de Cristo, que tem de ser cumprida, significa isto: carregar a cruz. O fardo do irmão que devo levar não são apenas sua aparência externa, sua maneira de ser ou seu temperamento, mas sobretudo seus pecados. E não há outro modo de fazê-lo a não ser perdoando-os no poder da cruz de Cristo, de que agora, participo. Desse modo, o chamado de Jesus para tomarmos a cruz põe cada discípulo na comunhão do perdão dos pecados. O perdão dos pecados é o sofrimento de Cristo ordenado ao discípulo, e é imposto a todos os cristãos” ¹

Sobre a bem-aventurança da misericórdia (de Mateus 5.7):

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. […] esses discípulos de Jesus vivem com ele também na renúncia à própria dignidade, pois são misericordiosos. Não bastasse a própria privação e aflição, compartilham ainda a aflição, a humilhação e a culpa dos outros. Sentem amor irreprimível aos pobres, enfermos, miseráveis, humilhados e oprimidos, injustiçados e marginalizados, a todos que sofrem com angústia; procuram os que caíram no pecado e na culpa. Nenhuma aflição é grande demais, nenhum pecado é horrível demais para sua misericórdia. Concedem sua própria honra ao que caiu em desgraça, e tomam sobre si a desonra do outro. Saem à procura de publicanos pecadores e aceitam abertamente a vergonha de sua companhia. Além de misericordiosos, renunciam ao maior bem que o ser humano pode possuir, isto é, a própria honra e dignidade. Conhecem apenas uma dignidade e honra: a misericórdia do Senhor, em função da qual vivem. Ele não se envergonha de seus discípulos, ele que se fez irmão dos seres humanos e carregou a vergonha deles até a morte na cruz. Essa é a misericórdia de Jesus, e é por ela que desejam viver os que estão ligados a Ele; é a misericórdia do Crucificado. Ela faz que esqueçam a própria honra e dignidade e procurarem a companhia dos pecadores. E, ainda que vergonha caia sobre eles, mesmo assim são bem-aventurados, pois receberão misericórdia.  Um dia Deus virá e tomará sobre si o pecado e a vergonha deles. Deus lhe concederá sua própria honra e tirará a desonra deles. Será a honra de Deus levar a vergonha dos pecadores e revesti-los com sua honra. Bem-aventurados os misericordiosos, porque têm o Misericordioso como Senhor” ²


Transcrever esses trechos não significa que eu ache que usar drogas é normal ou que tudo o que está acontecendo não seja grave. O meu desejo, como era o de Bonhoeffer, é que os cristãos tenham a compaixão de Jesus Cristo pelos seus irmãos e pelos que ainda não conhecem a Deus.

No amor de Cristo,

Lucas Ávila


¹ BONHOFFER, Dietrich. Discipulado.  São Paulo: Mundo Cristão, 2016, p.65 (tradução de Murilo Jardelino e Clélia Barqueta).

² p.83.

Daniela Araújo e os salmos

Quando lemos o Salmo 6 percebemos que o autor está deprimido. O rei Davi escreve que o seu ser estremecia, estava perturbado, provavelmente em razão de algum pecado, pois pede a Deus que não o discipline no momento de ira. O nível da depressão do salmista era tão alto que ele a sentia em seus ossos, chegando a pensar que estava perto da morte. Esse estado perturbador parece ter “visitado” o Rei Davi diversas vezes, como ele mesmo registrou nos salmos 32, 38 e 51, demonstrando que todo ser humano está sujeito a momentos de crise ou fraqueza. Em todas estas poesias de dor e angústia, contudo, Davi sempre terminava escrevendo palavras de esperança, certo de que Deus havia ouvido seu lamento (salmos 6.9, 32.5, 38.15 e 51.17).

Mas o que isso tem a ver com a Daniela?

Bom, a droga pode ter sido uma alternativa que essa moça encontrou para sua angústia ou depressão. “Mas, ela é cristã!”, alguém poderia dizer. Porém, quantos cristãos não se afastam de Deus e, em um momento de fraqueza, buscam socorro em outras coisas? Comidas, festas, amizades, bebidas, entretenimento, lazer… quantas coisas são alvo de nossa busca por cura e alívio? Muitos de nós já pensaram até mesmo em tirar a própria vida! Isso nos torna pessoas “não salvas”? De maneira nenhuma! Se adicionarmos outro critério para a salvação além da fé em Jesus Cristo, seremos tudo, menos cristãos! (Gálatas 2.16; 5.4). O profeta Elias também pensou na morte (1 Rs 19.3-4) e Jeremias chegou a perder a sua própria esperança em Deus! (Lm 3.18).

Ainda não sabemos o que a Daniela pensa sobre o caminho que trilhou. Mas, cada um sabe as decisões erradas que tomou e pode, assim como Davi, clamar a Deus, mesmo que seja para lamentar, chorar ou pedir misericórdia. Ou como Jeremias que, sem esperança em Deus, decidiu lembrar daquilo que poderia lhe dar esperança!

“Todavia, lembro-me também do que pode dar-me esperança:
Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade!”

(Lamentações 3:21-23)

 


P.S: este texto não se trata de uma opinião fechada sobre o assunto. Fiz uma reflexão sobre tudo o que tem se falado na internet enquanto eu lia o Salmo 6. Portanto, se alguém quiser conversar sobre o assunto do post, mandar um comentário, crítica ou sugestão pode de escrever aqui mesmo (clicando em ‘deixe um comentário’ ou preenchendo o formulário abaixo) ou me mandar um e-mail (lucasfavila@live.com).

No amor de Cristo,

Lucas Ávila

O individualismo na música gospel brasileira

Em razão do grande sucesso da música gospel brasileira, torna-se necessário que cover_front_perspectiveexistam pesquisas sobre esse fenômeno. É possível perceber uma mudança de temas nas canções entoadas pelos evangélicos ao longo do tempo, passando de assuntos relacionados aos atributos de Deus para um conteúdo mais individualizado, centrado no ser humano. Pensando nisso foi que decidi elaborar minha pesquisa de TCC do curso de Teologia em cima dessa temática: a presença do individualismo nas canções evangélicas brasileiras. Neste trabalho procurei identificar quais são as ênfases dos hinos do Novo Testamento; apresentar um panorama do processo de individualização da sociedade ocidental e suas influências no cristianismo evangélico brasileiro; e identificar a influência do individualismo nas canções cristãs evangélicas brasileiras dos últimos dez anos, fazendo uma comparação entre o conteúdo das canções contemporâneas e as ênfases dos hinos do Novo Testamento.

É com muita alegria que anuncio a publicação do meu TCC em dois formatos: Livro impresso e livro eletrônico (e-book). Para adquirir qualquer uma das versões, clique aqui!

UMA NOTÍCIA RUIM: Jesus não é tudo aquilo que nós queríamos

O natal chegou. E no Natal de 2016 não poderia ser diferente de nenhum outro: muita decoração, presentes, ceias de natal, famílias reunidas, cultos, missas, musicais e… textões de facebook sobre Jesus. Nada contra textos longos em redes sociais, ainda mais quando o assunto é Jesus Cristo. O único problema está no conteúdo destes “tratados cristológicos”, cheios de aproximações de Cristo com ideais políticos, sociais e até religiosos, que se parecem muitas vezes com “lições de moral” para os que pensam diferentes de seus autores. A verdade é que Jesus Cristo não foi e nem é aquilo que desejávamos.

Muitos judeus esperavam um messias que fosse um líder político, alguém que devolveria o governo de Israel aos judeus, mas Ele não o foi (Atos 1.6,7; João 18.36).

Nesse mesmo caminho, Comunistas e Socialistas insistem em dizer que Jesus é um exemplo de ensinamentos de esquerda, mas é fato indiscutível que Jesus não veio trazer nenhum tipo de sistema político (João 18.36) [1].

Nós imaginamos um Jesus muito bonito, que é retratado em quadros belíssimos e mostrado nas telas de cinema como um verdadeiro galã. O profeta Isaías afirma, com todas as letras, que o messias seria feio (Isaías 53.2).

Alguns esperavam (outros esperam até hoje) que Jesus fosse um revolucionário anarquista, mas não rolou (Lucas 20.21-25).

Os religiosos pensavam (alguns pensam até hoje) que o messias viria fazer valer a Lei da maneira como eles a entendiam. Ele a aprofundou e demonstrou como somos falhos em cumpri-la, desapontando a muitos (Mateus 5.17-48).

Os revoltados (antigos e “online”) gostariam que Jesus fosse mais duro com bandidos e mulheres “da vida”. Mas, – pasmem! – ele os amou, perdoou e os levou para junto de Si (Lucas 23.39-43; Lucas 7.37-50; João 8.1-11).

Alguns, numa ânsia por proteger os oprimidos mais do que o próprio Deus o faz, gostariam que Jesus rejeitasse os ricos, religiosos e poderosos. Mas, a história conta que Jesus se relacionou com os oprimidos, mas também com cobradores de impostos corruptos (Lucas 18.1-10) e religiosos fariseus (Lucas 7.36).

Universalistas gostariam que Jesus não falasse de inferno, mas Ele foi um exímio proclamador da existência dele (Mateus 5.22,30; 18.9; 23.15, 33 e outras). Eles também afirmam que todos serão salvos, mas se Jesus é a fonte de conhecimento deles, essa afirmação não confere (Mateus 7.21).

Nós esperávamos um Deus que exaltasse os fortes, corajosos e destemidos. Mas, Jesus ensinou que são bem-aventurados os pobres de espírito (e os pobres), os que choram, os humildes, os que promovem paz e até os que são perseguidos por causa dEle (Mateus 5.1-12).

Adeptos de todas as religiões e ateus gostariam que Jesus fosse somente um grande homem sábio ou profeta, com bons ensinamentos de moral. Mas, Ele mesmo disse que era Filho de Deus (Marcos 14.61-62; Lucas 22.70), o messias prometido a Israel (João 4.25,26), o próprio Deus (João 8.57-59) [2], o único caminho, a verdade e a vida (João 14.6) e salvador da humanidade (João 3.16,17). [3]

Em suma, Jesus era mais doce e amoroso do que esperávamos (Mateus 11.28,29) e mais duro e justo do que gostaríamos (João 6.60-71).[4] Ele não se encaixa em nenhum padrão estabelecido por nós e nunca disse que o faria. Pelo contrário, através de seu amor e graça no falar, Ele nos chama a vivermos um novo padrão de vida, longe de tudo que nos desumaniza e nos afasta dos planos divinos. Me parece que a afirmação de C.S. Lewis em as Crônicas de Nárnia define muito bem como Jesus é: “Ele não é domesticado”.

Ainda utilizando a brilhante representação de Cristo que Lewis faz, Louis Marko escreve: “Em Aslam, nós verificamos todos os poderosos paradoxos do Filho encarnado: ele é poderoso, mas gentil, cheio de uma ira justa e rico em compaixão; ele inspira assombro e até terror (pois não é um leão domesticado) e, ainda assim, ele é tão belo quanto é bom”. [5]

Que neste e nos próximos natais, cada um de nós possa reconhecer o amor, a graça, o perdão e também as duras palavras de Jesus Cristo. Pois, Ele é tudo aquilo de que precisamos: sem nenhuma exceção!


[1] Todos sabemos de ensinamentos de Jesus como aquele proferido ao jovem rico em Mateus 19.21 (“venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres”), mas eles caracterizavam uma ordenança pessoal para quem quisesse segui-Lo. E o trecho de Atos 2.45,46, que descreve o hábito dos cristãos primitivos de compartilharem seus bens uns com os outros, caracteriza um modelo interno de vida comunitária para os cristãos e jamais significou um sistema político.

[2] Para mais referências, leia o artigo “Jesus alguma vez disse ser Deus?”. Disponível em <http://www.suaescolha.com/jesus/jesusedeus >.

[3] Sobre isso, C.S. Lewis disse: “Tento aqui impedir que alguém diga a grande tolice que sempre dizem sobre Jesus Cristo: ‘Estou pronto a aceitar Jesus como um grande mestre em moral, mas não aceito sua afirmação em ser Deus. ’ Isto é exatamente a única coisa que não devemos dizer. Um homem que foi simplesmente homem, dizendo o tipo de coisa que Jesus disse, não seria um grande mestre em moral. Poderia ser um lunático, no mesmo nível de um que afirma ser um ovo pochê, ou mais, poderia ser o próprio Demônio dos Infernos. Você decide. Ou este homem foi, e é, o Filho de Deus, ou é então um louco, ou coisa pior… Você pode achar que ele é tolo, pode cuspir nele ou matá-lo como um demônio; ou você pode cair a seus pés e chamá-lo Senhor e Deus. Mas não vamos vir com aquela bobagem de que ele foi um grande mestre aqui na terra. Ele não nos deixou esta opção em aberto. Ele não teve esta intenção. ” 

 [4] Leia o artigo “As Palavras Duras de Jesus Cristo”. Disponível em <http://clamordosadoradores.com.br/new/as-palavras-duras-de-jesus-cristo >.

[5] Disponível em <http://tuporem.org.br/refletindo-sobre-aslam-e-jesus-com-c-s-lewis >.

Cobertor – Lucas Ávila (Clipe 2012)

Música: Cobertor
Letra e música: Lucas Ávila
Gravação e edição: Levy Ávila Jr. (Cena 3)
Gravado no segundo semestre de 2012, na Igreja Batista em Brasilândia
 
Descrição: Essa música descreve alguém que, na caminhada da Fé em Cristo Jesus, perdeu o sentido pelo qual obedece aos mandamentos ou pelo qual trabalha no Reino de Deus. Em Apocalipse, Cristo condenou a igreja de Éfeso por ter abandonado o primeiro amor, apesar de ainda ser uma igreja que perseverava na luta cristã e recebia perseguições pela causa do Evangelho. Ela trabalhava, mas perdeu o sentido pelo qual fazia isso. A oração do refrão desta canção roga a Deus que reacenda a chama do primeiro amor a Jesus, que dá sentido a tudo que fazemos para Ele.
 
“Conheço as suas obras, o seu trabalho árduo e a sua perseverança. Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores.
Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome, e não tem desfalecido.
Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor.”
(Apocalipse 2:2-4)

O natal é pagão?

4Não acredito que o fato de o cristianismo ter substituído uma festa pagã (festividade ao Deus sol) por uma com um sentido cristão, retire o valor que essa data tem (ou que tenha recebido). Até mesmo o fato de o natal ter se tornado uma data comercial, de
altos lucros, não faz do natal algo completamente negativo.

Eu acredito que apesar disso tudo, o natal faz algo magnífico com o mundo: une famílias, proporciona momentos de alegria ao dar e receber presentes e, o melhor de tudo, faz a maioria das pessoas lembrarem ou conhecerem a história de Jesus. A maioria absoluta dos cristãos sabe que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro, mas mesmo assim o natal cumpre uma missão, mesmo que de forma discreta: A missão de anunciar o nascimento de Jesus Cristo, o Salvador do mundo.

E o natal é isso: nada mais e nada menos do que o nascimento de Jesus, o Filho de Deus. Todos comemoram, querendo ou não, o dia em que Deus decidiu se tornar como um de nós, para que fosse possível vencermos as tentações do mundo e nos relacionarmos com Deus diretamente, sem mediações (Hebreus 2.18; 1 Timóteo 2.5).

Desejo a todos o natal verdadeiro: o nascimento de Jesus em nossos corações!

Feliz natal!