O padrão de justiça do discípulo de Cristo

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem,  para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”.

Mateus 5:43-48

Introdução

Jesus começou seu ministério com uma mensagem simples e poderosa: “Arrependam-se, pois o Reino dos Céus está próximo” (Mateus 4.17). Para que ele exigisse arrependimento, contudo, Jesus sabia que era necessário mostrar qual era o novo modo de vida que Ele estava propondo. Encontramos esse novo padrão de vida proposto por Jesus nas belíssimas palavras  de seu sermão conhecido como Sermão do Monte (nos capítulos 5 a 7 do evangelho de Mateus): o novo modo de viver pregado aqui por Cristo inclui, entre outras coisas, a afirmação de que os pobres de espírito, os humildes, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores e os perseguidos por causa de Jesus são “bem-aventurados”.  Depois de dizer isso,  Jesus declara algo que mudaria a maneira como a religião da época enxergava a Lei de Deus : “Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus” (Mateus 5.20). O que poderia significar ter uma justiça que excede, ou seja, que é superior à justiça dos fariseus e mestres da lei?

Para responder essa pergunta, contudo, é necessário entender quem eram os fariseus e mestres da Lei. De forma resumida, os fariseus eram considerados os guardiões da Lei, eram conhecedores e estudiosos da lei de Moisés. Eles cumpriam os preceitos da Torá (Antigo Testamento), tanto os dez mandamentos quanto os que eles mesmos “formulavam” por meio de suas interpretações (queriam que todos praticassem mais de 600 leis que surgiram de acordo com a interpretação que faziam da Torá). Já os mestres da Lei eram aqueles que praticavam a lei de modo literal, sendo tão zelosos quanto os fariseus. Considerando essa descrição, como seria possível ter uma justiça superior a desses caras? Se eles eram tão rigorosos com a Lei, como os discípulos de Jesus poderiam ser ainda melhores do que eles? Como agir superando um limite tão alto?

Antes de chegar ao nosso objetivo, que é entender a passagem de Mateus 5.43-48, é importante dar uma olhada no que Jesus disse logo depois de dar essa ordem aos discípulos. Primeiro, Ele condena o fato de que naquela época os religiosos judeus julgavam os que cometiam assassinato com base no sexto mandamento (“não matarás”), mas não julgavam a atitude de se irar contra alguém ou de zombar de seu semelhante. Segundo Jesus, o mandamento que nos proíbe de assassinar alguém não significa apenas que seja errado tirar a vida (física) de alguém, mas também que é pecado “matar” alguém dentro de nós por meio da ira ou atacar alguém por meio de zombaria (Mateus 5.21-22).  Depois, Ele direciona sua fala contra aqueles que condenam fortemente o adultério, mas se esquecem de que desejar com os olhos alguém que não seja seu cônjuge é igualmente abominável diante de Deus (5.27-38). Em suma, Cristo estava atacando a hipocrisia dos líderes religiosos da época, que insistiam em olhar apenas para as ações exteriores, ignorando as atitudes e pensamentos do coração. Além disso, o mestre ainda traz uma outra “novidade” aos olhos dos religiosos: nunca se deve devolver com a mesma moeda àqueles que nos fazem mal, antes, devemos oferecer “a outra face” (Mateus 5.38-42).

E o que tudo isso quer dizer, afinal? De modo claro, Jesus está afirmando que o zelo que os fariseus e mestres da Lei tinham pelos mandamentos estava errado , pois pensavam que a Lei de Deus se tratava apenas de ordens e regras de agir exterior. Para Jesus, a interpretação que estes religiosos faziam da Lei de Deus estava no mínimo incompleta. Portanto, os discípulos de Cristo devem procurar agir muito além dessa interpretação errônea dos fariseus e mestres, porque a Lei se trata também – e principalmente – das atitudes internas do nosso coração. Jesus estava declarando que os mandamentos divinos devem guiar não só o que fazemos, mas também cada pensamento que temos. Entendendo bem isso,  chegamos [finalmente] à passagem específica que é base para este artigo.

Partindo da mesma ideia que permeia todo o texto de Mateus 5.20 até o final do capítulo, a saber, de que é necessário que os discípulos superem a justiça dos religiosos, Jesus expõe o que me parece ser o maior dos desafios para que seus seguidores tenham essa justiça que é superior a dos Fariseus e mestres da lei:

 

Os discípulos de Cristo devem amar os seus inimigos

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” – v.43-44

A justiça vigente entre os judeus era a de que deviam amar o próximo como a si mesmo (Levítico 19.18), mas ela não incluía amar os seus inimigos. Para os hebreus, esse mandamento abrangia somente “os patrícios judeus”¹. É importante, contudo, percebermos que a máxima “odeie o seu inimigo” não se encontra no Antigo Testamento, demonstrando que essa atitude (de odiar os inimigos) era normalmente aceita naquela época pelos judeus, mas não era um mandamento divino, o que prova quão distorcida era a interpretação dos Fariseus e mestres sobre a Torá.

Os discípulos de Cristo, diferentemente dos religiosos, devem dar um passo a mais, superar a justiça comumente aceita e direcionar seu amor também aos inimigos, além e apesar de seus próprios sentimentos. Nesse ponto, temos que  perguntar: Os cristãos têm inimigos? Um discípulo de Cristo pode ter inimigos?

Jesus pressupõe, em suas palavras, que o cristão não é inimigo de ninguém e que não deve direcionar ódio a ninguém (Mateus 5.21-22). Os cristãos não são, portanto, inimigos de nenhum ser humano, nem de nenhum grupo específico de seres humanos. Os que perseguem os cristãos podem considerá-los seus inimigos, mas Cristo ordena que seus discípulos amem seus perseguidores e que orem por eles. Eles se opõem aos cristãos e, em resposta, os cristãos os amam! Nunca odeiam de volta!

Ainda que existam pessoas que persigam os cristãos e que sejam inimigos de sua fé, o apóstolo Paulo afirma que “a nossa luta não é contra seres humanos (carne e sangue), mas contra os poderes e autoridades, dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais” (Efésios 6.12). Então, mais uma vez o Novo Testamento demonstra que os cristãos não podem considerar nenhuma pessoa como seu inimigo, antes, devem devolver amor a qualquer ódio que seja lançado contra eles. Dietrich Bonhoefer² afirma, em seu livro Discipulado, que

no Novo Testamento, inimigo é sempre aquele que é contra mim. Jesus não conta com a possibilidade de que seu discípulo pudesse ser inimigo de alguém. O amor do discípulo de Jesus cabe tanto ao inimigo como ao irmão. A ação do discípulo não deve ser determinada pela conduta do ser humano, mas pela ação de Jesus para com ele. A resposta do discípulo às ações humanas tem apenas uma origem: a vontade de Jesus.³

  • Nosso inimigo é nosso próximo também!

Certa vez, alguém perguntou para Jesus: “quem é o meu próximo?”.  Por meio da parábola do Bom Samaritano (Lucas 10.25-37), Jesus responde que nosso inimigo também é o nosso próximo. Os samaritanos eram descriminados pelos judeus e, na parábola que Jesus apresenta, é justamente um samaritano, um “inimigo” dos judeus, o único que se dispõe a ajudar o homem que havia sido assaltado e agredido.

Então, a resposta à pergunta “os cristãos têm inimigos? ” é: NÃO! Na verdade, o único inimigo de fato dos cristãos é o diabo (“estejam alertas e vigiem. O Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar” – 1 Pedro 5.8). Ainda que muita gente vá lutar contra o avanço da fé cristã, os discípulos de Jesus nunca podem considerá-los como inimigos e nem os odiar. Nosso dever, como cristãos, é amá-los e orar por eles, ainda que alguns possam nos considerar inimigos.

 

Os discípulos de Cristo amam os seus inimigos para demonstrar que são filhos de Deus

“…para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos.” – v.45

Ao falar de amor aos inimigos, Jesus está enfrentando abertamente não só os religiosos daquela época, mas também a cada um de nós e nossa forma de pensar hoje. Ele não ordena somente que amemos aqueles que nos odeiam e nos perseguem, como também afirma que agir assim demonstra que somos filhos de Deus! E, segundo Jesus, isso é verdade porque o próprio Deus derrama seu amor aos “bons e maus”:

Porque Ele faz raiar o seu sol sobre os maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” – v.45b

“ele é bondoso para com os ingratos e maus” – Lucas 6:35c

Estes dois versículos estão dizendo que Deus está, neste exato momento, cuidando de nós e Ele também está, neste exato momento, cuidando daqueles que não o amam e não creem nEle. É interessante que o texto enfatiza que o sol que Deus faz nascer sobre bons e maus é DELE. Ele dá, a todos sem distinção, aquilo que lhe pertence e que seria totalmente justo caso ele decidisse não o fazer.

  • Os cristãos também eram inimigos de Deus e Ele os amou:  

“Antes vocês estavam separados de Deus e, em suas mentes, eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês.”  (Colossenses 1:21)

“Deus prova o seu amor para conosco em que, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós” (Romanos 5.8).

  • O cristão não deve nada a ninguém a não ser o amor:

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama o seu próximo tem cumprido a Lei” (Romanos 13.8)

O seguinte trecho escrito no primeiro século pelo apóstolo Paulo em sua carta aos cristãos de Roma exclui a necessidade e a possibilidade de vingança e justiça com as próprias mãos e demonstra que a única forma de vencer o inimigo é pelo amor:

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoe […]. Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos.
Façam todo o possível para viver em paz com todos. Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: “Minha é a vingança; eu retribuirei”, diz o Senhor. Pelo contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem. (Romanos 12:14 e 17-21)

Os discípulos de Cristo amam os seus inimigos para demonstrar que são filhos de Deus, pois, afinal, os filhos gostam de imitar seus pais. No caso do cristão, se “Deus é amor” (1 João 4.8), então a única atitude possível é tentar imitar esse amor!

 

Os discípulos de Cristo devem fazer mais do que o que todo mundo faz

“Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso!” – v.46-47

Aqui, Cristo reforça seu desejo de que seus seguidores agissem para além do padrão, para além do que era normalmente feito e aceito por todos. Enquanto todo mundo ama os seus amigos e parentes, o cristão deve fazer isso e ainda mais: deve amar também os que o odeiam. Afinal, todo mundo ama só quem lhe faz bem, mas como minha mãe dizia: “você não é todo mundo” (rsrs).

Se o discípulo de cristo faz somente o que todos fazem, somente o que o padrão manda, então ele não faz nada demais (v.46-47). O cristão, contudo, não faz mais do que o comum porque ele é melhor do que os outros ou para mostrar superioridade. Na verdade, ele sabe que também já foi um inimigo de Deus e que só se tornou um amigo e servo de Cristo pela graça, por meio da fé e não por obras ou merecimento (Efésios  2.8-10). Ao invés disso, o cristão ama o inimigo exatamente por causa do amor de Deus pelas pessoas que Ele mesmo criou. O amor é a marca do cristão e amar ao próximo e aos que são inimigos é demonstrar ao mundo o amor de Cristo.

Jesus, nos versículos de 39 a 42 de Mateus 5,  nos ensina o que é amar os inimigos:

* Oferecer a outra face quando alguém nos ferir (v.39)

* Não ser resistente quando te processarem e quiserem te tirar algum bem (v.40)

* Andar a segunda milha quando nos forçarem a caminhar a primeira (V.41)

* Emprestar (sem virar as costas) a quem pedir emprestado (v.42).

Amar os inimigos pode parecer para o mundo uma atitude passiva demais, burra demais… Mas não é! Essa é a forma como os cristãos vencem suas batalhas: pelo amor  de Cristo! Nunca pelo ódio!

 

Conclusão

Qual é, por fim, o padrão superior ao dos Fariseus e mestres da lei do qual Jesus fala? Em suma, o que significa superar a justiça dos líderes religiosos daquela época? Cristo responde no versículo 48: “Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”. Com base nas palavras de Jesus, entendemos que o cristão supera a justiça comum quando faz mais do que o que todo mundo faz! Essa justiça que supera o modo de agir dos Fariseus e mestres da lei é a justiça da perfeição do caráter de Deus! Enquanto o padrão comum do mundo e até dos religiosos é “ame os que te fazem bem”, o amor que Jesus requer de seus discípulos vai muito além desse padrão: “ame aqueles que te odeiam! ”. O nosso padrão de espiritualidade, de amor, de agir e de viver é a perfeição e a santidade de Deus! E essa perfeição diz respeito não só ao nosso agir externo, mas também e principalmente ao nosso interior, ao nosso coração. A pergunta não é somente se estamos agindo bem, mas se o nosso modo de pensar é bom. Estou odiando meus semelhantes? Eu amo somente os que me amam? Estou fazendo só o que o padrão manda fazer?

Essas perguntas devem nos fazer refletir. Ou melhor, a perfeição do amor Deus pelos seus filhos e também por aqueles que ainda não O aceitaram deve trazer reflexão ao coração. Afinal, como dissemos anteriormente, os que já encontraram Jesus Cristo e receberam a libertação dos pecados, sabem que um dia foram inimigos de Deus e que Ele, por sua infinita graça e misericórdia,  nos amou e nos tornou não apenas servos, mas também amigos de Deus. Portanto, abandonando o padrão baixo da religião e do mundo, adotemos o padrão mais elevado de amor que já existiu: o amor de Cristo!

 


Referências e notas:

¹BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2009, p.1560.

² Dietrich Bonhoeffer era pastor luterano e teólogo, foi preso em 1943 por participar de um motim para assinar Hitler.  Após dois anos preso, foi enforcado em 1945 pelos nazistas.

³ BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2016, p.114.

* Este artigo é uma adaptação de um sermão.

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Salmo 16: A teologia da satisfação

Neste salmo, temos diante de nós uma pessoa satisfeita. Não sabemos se o salmista tinha bens e riquezas ou se tudo estava indo muito bem na sua vida diária, mas não há como negar que essa oração registra uma satisfação imensa de alguém que considerava Deus o seu maior bem: “Tu és o meu Senhor; além de ti não tenho outro bem” (v.2). Por quantas dificuldades poderia estar passando o salmista no momento em que escreveu essa oração? Ainda que não seja possível descobrir a resposta para essa pergunta, a poesia mostra que a alegria do salmista era transbordante (v.9) simplesmente pelo fato de ter e de pertencer a Deus, não pelo que tinha ou pelas circunstâncias que o cercavam.

Senhor, tu és a porção da minha herança e do meu cálice; és tu quem garante o meu destino” (v.5)

Talvez muitos dos meus leitores não conheçam Deus e não façam muita questão de pertencer a Ele (e de tê-lo como bem maior). Não é possível, contudo, ignorar as afirmações tão belas e cheias de significado que este autor faz sobre a alegria que é estar com Deus. Só existem duas conclusões ao lermos as palavras do poeta: ou ele é uma pessoa louca ou teve uma experiência com esse Deus. Uma experiência que o transformou na pessoa mais segura do mundo. Afinal, quem tem a certeza de que nunca será abalado a não ser aquele que tem sempre o Senhor diante dele? (v.8).

Muitos anos separam a composição deste salmo da vida que o apóstolo Paulo viveu dedicada a Jesus, mas é de sua autoria algumas das palavras mais fortes sobre o que é estar satisfeito somente pelo fato de servir a Deus:

…já aprendi a estar satisfeito em todas as circunstâncias em que me encontre. Sei passar necessidade e sei também ter muito; tenho experiência diante de qualquer circunstância e em todas as coisas, tanto na fartura como na fome; tendo muito ou enfrentando escassez. Posso todas as coisas NAQUELE QUE ME FORTALECE” (Filipenses 4.11-13)

 Entenda, minha intenção aqui (e também do salmista) não é de afirmar que se você não vive diante de Deus o tempo todo, não terá momentos de alegria. É certo que o mundo que o Criador fez esta cheio de belas coisas e momentos que nos deixam felizes. Contudo, a intenção do salmista (e minha também, é claro) é registrar, por meio de uma oração, que na presença do Senhor existe alegria plena! Somente quem um dia foi alcançado pelo amor e graça de Cristo sabe o que é ser feliz eternamente, independente das circunstâncias, já no tempo presente!

“Tu me farás conhecer o caminho da vida; na tua presença há plenitude de alegria; à tua direita há eterno prazer” (v.11)

Salmo 15: Uma teologia inabalável

As últimas palavras do salmo revelam que é possível ter uma teologia inabalável: “Aquele que agir assim nunca será abalado” (v.5b). Que modo de pensar e viver é esse que traz tanta segurança para quem o pratica? Ou, que teologia é essa que nada pode desestruturá-la? É possível ter uma vida tão segura assim?

Os estudiosos afirmam que este salmo revela um costume do Oriente Médio, no qual um peregrino adorador pergunta ao porteiro quais são as condições para entrar e adorar a Deus no santuário. E então um levita ou sacerdote responde com as palavras dos versículos 2 a 5.[1] Contudo, a poesia do salmo 15 começa perguntando sobre quem pode habitar no tabernáculo do Senhor e não apenas sobre uma visita. Significa que o desejo do salmista era permanecer, ficar firme, ter uma vida constante na presença de Deus.

A resposta que encontramos para o desejo do salmista pode ser resumida pelo versículo 2: Aquele que deseja habitar na presença de Deus é “aquele que vive com integridade, pratica a justiça e fala a verdade de coração”. Essas condições exigidas por um Deus santo não significam apenas que os que se aproximam dEle não devem ter pecados, pois sabemos que é o próprio Deus quem nos perdoa os erros (1 João 1.9). Antes, essas palavras significam que, para ter uma vida inabalável é necessário ser íntegro (autêntico, inteiro, completo), praticar a justiça e ser verdadeiro (sincero, até mesmo com suas falhas). Certamente, quem deseja estar com Deus, sabe que sua Santidade transforma o nosso interior e cada dia ouvindo e aprendendo sobre Deus cria um caráter íntegro, como o descrito neste salmo (Romanos 6.22; 2 Coríntios 7.11).

O modo de viver descrito no versículo 2 encontra paralelo no livro do profeta Miqueias (6.8) e nas palavras do próprio Jesus (Mateus 5.1-12 e 23.23). Tanto o profeta do Antigo Testamento como Jesus defendem uma importância maior da integridade, da justiça e da misericórdia como requisitos para servir ao Senhor, colocando regras e rituais como secundários na vida com Deus. Na verdade, as especificações dos versículos 2 a 5 falam de cuidados para com o próximo: viver com justiça, não difamar, não fazer o mal, não caluniar, honrar os que temem a Deus, não emprestar o dinheiro visando o lucro…

Sabemos que a salvação é pela graça e pela fé, e que ela não depende dos esforços humanos em serem boas pessoas. Contudo, sabemos que a fé produz frutos que devem ser buscados e colocados em prática. Ou seja, nossas boas obras (ou bons comportamentos) não nos salvam, mas a nossa salvação gera boas obras e um bom caráter, “pois fomos criados em Cristo para as boas obras, previamente preparadas por Deus para que andássemos nelas” (Efésios 2.8-10). É preciso salientar que, apesar de eu ter puxado o assunto, a intenção aqui não é falar de salvação, mas sobre a vida com Deus. E esta possibilita que tenhamos uma visão de mundo robusta, onde a vida com Deus e com o próximo é coerente com a santidade do Senhor. Esta é uma teologia inabalável!

Aquele que agir assim nunca será abalado” (v. 5b)


[1] BRUCE, 2009, p.776.

Salmo 14: A teologia ateísta

 

 Todos nós fazemos teologia. Todos possuímos nossa própria teologia de vida. Alguns tomam como ponto de partida de que o deus que tudo criou é YAHWEH, descrito na Bíblia, que enviou seu Filho Jesus para resgatar a humanidade pecadora. Outros, contudo, entendem que o mundo que vivemos não passa de uma ilusão, um universo fragmentado que deve retornar à Unidade (O Um) por meio de reencarnações. Também existem aqueles que compreendem um universo sem deus, surgido por um acaso, por motivo algum. Sim, isso também é uma teologia: a teologia do “não há Deus”!

Aos crentes da teologia ateísta o salmista dá o nome de insensatos (v.1), palavra que em hebraico tem o significado não de alguém que simplesmente não acredita em Deus porque foi mal orientada nas verdades bíblicas, mas de alguém que conscientemente decidiu viver longe dos princípios de vida ensinados por Ele.[1] Toda teologia serve de base para nosso modo de viver: atitudes morais, éticas, modo de se relacionar, de perdoar, de amar… A teologia de alguém é a sua cosmovisão, ou visão de mundo, e alguém que decidiu não olhar o mundo pela visão de Deus está certamente perdida. Por isso, o salmo 14 (que não é um lamento comum de um israelita) chama de insensato quem não acredita em Deus, pois sem uma teologia correta, nossas escolhas diárias podem ser completamente erradas.

Neste momento, alguém que se diz crente pode estar se gabando de não ser um tolo segundo as ideias do salmista, simplesmente porque está identificado na sociedade como um cristão ou como alguém que tem fé em um deus. Contudo, o autor dessa poesia não estava pensando só nos que se declaram ateus, mas também naqueles que agem como se o modo de ver o mundo e de viver sua vida estivesse pautado numa teologia incorreta, isto é, de que Deus não existe. Você pode pensar e dizer que acredita na teologia cristã, mas, ainda assim, viver uma teologia ateísta, onde todas as suas atitudes são executadas sem considerar os princípios de Cristo. Quantos cristãos não conhecemos que, ao saírem dos templos nos finais de semana, são corruptos, intolerantes, indiferentes, violentos, sem autocontrole, preconceituosos, fofoqueiros e tantas outras coisas que não condizem com uma teologia de fato cristã. Na teoria são cristãos, na prática são ateus.

Talvez alguns ateus protestem, dizendo que praticar coisas erradas não tem nenhuma ligação com a visão de um mundo sem Deus. Eu terei de concordar que muitas pessoas que não possuem uma religião promovem boas ações, mas devo explicar que minha intenção é apontar para o fato de que uma teologia de fato cristã é formada por princípios pautados na bondade, na justiça e no amor de Deus[2], o que faz com que qualquer um que de fato acredite nEle tenha atitudes que reflitam essa teologia. Contudo, uma teologia ateísta não possui um padrão ou uma fonte definida para uma moral e ética padronizadas, o que faz com que essa cosmovisão seja mais frágil e menos consistente, já que está completamente aberta e livre de princípios e doutrinas específicas.

A lição devocional do salmo, portanto, é a de que viver sem Deus (ou como se Deus não existisse) pode nos tornar pessoas perdidas, sem rumo e sem amor:

O insensato diz no seu coração: Deus não existe. Todos se corrompem e praticam abominações; não há quem faça o bem” (v.1).


[1] KIDNER, 1980, p.95; BRUCE, 2000, p.776.

[2] É claro que isso é uma síntese muito pequena.

Salmo 13: A teologia do esquecimento de Deus

Assim como o rei Davi, muitas vezes sentimos como se Deus tivesse se esquecido de nós. E nos perguntamos: “Até quando, Senhor? Tu te esquecerás de mim para sempre? Até quando esconderás o rosto de mim?” (v.1). Questionamos a Deus pelo fato de nos sentirmos perdidos, sem saber o que fazer, enfraquecidos pelos nossos inimigos. Nada parece dar certo, nada de novo acontece e já podemos ver os inimigos zombando de nós pela derrota.

Sabemos que Israel era uma nação que vivia em guerra, colecionando diversos inimigos no decorrer da história. Contudo, ainda que os salmistas se dirijam aos seus inimigos humanos, desejando a derrota deles, os cristãos sabem que a ordem de Jesus é de amar os inimigos (Mateus 5.43-48). Por isso, não trataremos da palavra “inimigo” do v.4 como um inimigo humano, pois devemos amá-lo. Antes, voltemos nossa atenção para os inimigos que mantemos vivos dentro de nós: preguiça, orgulho, ambição, egoísmo, indiferença, ódio, desamor, falta de perdão e misericórdia etc. Quantas vezes não sentimos que estamos sendo dominados por esses inimigos? Nossos sentimentos e pensamentos mais sombrios parecem nos atacar e zombar de nós. Oramos a Deus, mas parece que nada muda: “Até quando, Senhor?”.

Talvez esse salmo e essa reflexão se encaixem para alguns numa situação mais cotidiana, como dificuldade financeira, sofrimentos físicos ou uma oração não respondida, na qual muitas vezes não vemos uma ação ou direção vindas de Deus. Mas quero falar com aqueles que hoje enfrentam um silêncio estranho de Deus, enquanto sua vida parece sufocada pelos seus inimigos mais íntimos: seus próprios pecados! Estas palavras, que não tem intenção de resolver seus problemas (nenhuma devocional diária tem essa intenção!), são direcionadas a você que está angustiado e sufocado por ainda possuir tantos pensamentos e sentimentos pecaminosos.

 “Até quando relutarei dia após dia, com tristeza em meu coração? Até quando o meu inimigo (eu mesmo) se exaltará sobre mim?” (v.2).

Nós nos perguntamos “até quando eu continuarei assim: cedendo aos meus inimigos interiores? Deus me ajude!”. A verdade é que, honestamente e humildemente, não tenho respostas prontas para explicar o aparente esquecimento de Deus. Mas é fato que diversos personagens bíblicos e também modernos viveram a mesma situação. E, ainda que você se sinta triste e desanimado, o salmista deixa uma dica de esperança, mesmo diante de tamanho desespero: ainda que Deus esteja em silêncio, confie na misericórdia dEle e se alegre na salvação e no livramento que Ele certamente te dará em breve. Continue fiel a Deus, pois enquanto você sente que Ele não te escuta, sua bondade ainda está sobre você:

Mas eu confio na tua misericórdia; meu coração se alegra na tua salvação. Cantarei ao Senhor, porque ele me tem feito muito bem” (v.5-6).

Salmo 12: A teologia da decepção

 

A oração do salmista escancara o coração de alguém que está decepcionado com o ser humano e a sua capacidade de faltar com a verdade: “Cada um mente ao seu próximo; fala com lábios bajuladores e coração fingido” (v.2). Quem escreveu este salmo, parece ter sido enganado tantas vezes que chega ao ponto de duvidar da existência de pessoas verdadeiras no mundo (v.1). O que parece prevalecer no mundo é um tipo de pessoa que não se preocupa com as consequências do que diz, como se Deus não estivesse atento (v.4).

Contudo, o poeta sabe que, apesar de os seres humanos serem muitas vezes não confiáveis, existe um ser que nunca mente: “As palavras do Senhor são puras, como prata refinada numa fornalha de barro purificada sete vezes” (v.6). Se por um lado as pessoas mentem e nos enganam o tempo todo, decepcionando cada gota de confiança que depositamos sobre elas; do outro está o próprio Deus, que nunca deixa de cumprir as suas promessas (que deixou para nós nas Escrituras) e jamais nos abandona. Veja, por exemplo, o que ele disse para um de seus servos mais fiéis: “Esforça-te e sê corajoso; não tenhas medo, nem te assustes; porque o Senhor, teu Deus, está contigo, por onde quer que andares” (Josué 1.9).

Em um momento desafiador, as palavras de Deus a Josué ficaram guardadas em seu coração. Com certeza ele levou consigo aquela promessa, até o final de sua vida. E ele comprovou a veracidade e a fidelidade de Deus até o fim, tanto que disse, depois de tanto tempo: “Eu e minha cada cultuaremos o Senhor” (Js 24.15), desafiando a todo o povo a fazer o mesmo!

É claro que não precisamos ser tão radicais a ponto de não confiarmos em ninguém. As palavras do salmista no primeiro versículo são poéticas e expressam os sentimentos mais intensos em um momento de decepção. Mas, também fica claro que a nossa confiança total pode ser depositada somente nas Palavras de Deus. Suas promessas de vida, perdão, paz, salvação e proteção devem estar sempre guardadas em nosso coração, afinal, Deus nunca mente.

Salmo 11: A teologia do refúgio

Quando os fundamentos são destruídos, que pode fazer o justo?” (v.3)

Em um certo momento da vida de Davi, o qual não sabemos ao certo o que estava acontecendo, algumas pessoas próximas a ele estavam sugerindo que a solução para se livrar do mal era “fugir para o monte”! Os versículos 2 e 3 sugerem que era um tempo de violência contra pessoas honestas e que os fundamentos (as leis de Deus) estavam sendo atacados.[1] O que fazer quando as coisas não vão bem? Para onde ir, quando seus amigos apresentam diversas soluções para o seu problema, até mesma a de fugir para longe?

Apesar de sugerirem a fuga, o salmista sabia que a melhor opção não era fugir: “Eu me refugio no Senhor!” (v.1). Ele entendia que o homem ou a mulher que conhece a Deus não tem outra opção mais segura do que se refugiar e procurar abrigo debaixo das asas do Único que é capaz de nos proteger do mal:

“Ele o cobrirá com as suas penas, e sob as suas asas você encontrará refúgio; a fidelidade dele será o seu escudo protetor.” (Salmo 91.4)

Tudo isso parece fácil, mas não é. Nós sempre nos achamos autossuficientes e capazes de encontrar a melhor saída para nossos problemas e acabamos deixando de lado o fato de que Deus é suficiente e poderoso para nos ajudar e nos guiar para o melhor caminho, nos protegendo de qualquer perigo. Com o Senhor estamos um milhão de vezes mais seguros do que quando fugimos usando nossa própria inteligência para solucionar problemas.

Houve alguém na história que entendeu perfeitamente o quanto nós, seres humanos, somos limitados sem Deus. O seu nome é Pedro, um dos discípulos de Jesus, e nós podemos aprender com ele. Enquanto algumas pessoas estavam deixando de seguir o mestre, o próprio Cristo perguntou aos seus discípulos: “Vós também não quereis retirar-vos?”. Pedro, contudo, respondeu: “Senhor, para quem iremos? [Só] Tu tens as palavras de vida eterna” (João 6.67-68).  Portanto, não há motivos para fugir, somente razões para se refugiar em Deus!


[1] “O que pode fazer a pessoa honesta quando as leis e os bons costumes são desprezados?” (tradução da NTLH par ao versículo 3)