Salmo 17: A teologia da entrega

O povo de Israel costumava se colocar diante de Deus como se estivesse em um tribunal, onde o Senhor era o juiz. Neste tribunal, o israelita ou a nação é o reclamante da causa e clama por sua inocência e justiça contra os seus malfeitores[1]. No salmo 17 vemos exatamente este cenário em que o salmista pede ao Juiz que ouça a sua causa, que ele entende ser justa, e pede ainda que atenda o seu clamor (v.1). A estrutura do discurso de Davi nesse salmo pode ser dividida da seguinte forma: declaração de inocência (v.1-5); apelo à bondade do Juiz/Deus (v.6-9); acusação contra os ímpios (v.10-12); apelo à ação justa do Juiz/Deus (v.13-14); declaração de confiança e satisfação em Deus (v.15)[2].

Israel era uma nação que costumava resolver algumas de suas questões por meio de guerras. Ainda assim, não agiam simplesmente como e quando queriam. Neste salmo vemos expressa a sua dependência da ação e revelação da vontade de Deus quanto a questões de justiça. Antes de agir ou de esperar que algo acontecesse às nações inimigas, os israelitas buscavam a Deus:

Que a minha sentença venha de ti; que os teus olhos atentem para a retidão” (v.2).

Seja em uma situação pessoal, na qual a inocência de um indivíduo era requerida em uma oração a Deus no templo, seja em uma grande guerra envolvendo toda a nação contra povos vizinhos, a vontade e a justiça do Senhor, o Deus de Israel, era buscada. Um dos grandes exemplos dessa grande dependência do povo para com Deus é narrado no segundo livro de Crônicas, capítulo 20. Neste episódio, o reino de Judá estava sendo atacado pelos moabitas, amonitas e meunitas e a reação do rei Josafá foi de “buscar o Senhor” e o povo se reuniu “para pedir socorro ao Senhor” (v.3-4). Ou seja, em uma situação em que a atitude óbvia era fugir ou contra-atacar, o povo entrega sua grande decisão nas mãos de seu Deus.

Entregar a Deus uma situação de nossa vida, deixando nas mãos dEle a decisão, nada mais é do que dependência. Colocar nossas causas e ansiedades diante de Deus, em oração (como faziam os salmistas), é declarar humildade. É reconhecer que não somos capazes de realizar tudo e que Deus pode todas as coisas, sendo Ele infinitamente maior do que nós.

Está diante de uma grande (ou pequena) decisão? Se sente injustiçado de alguma forma e grita desesperadamente pela sua inocência? Precisa entender o que está acontecendo em sua vida? Veja bem, querido leitor, isto poderá soar como uma solução simplista. Contudo, diante desse salmo, só há uma resposta possível para todas essas perguntas: dependa, entregue e confie em Deus! Foi o que o salmista fez e declarou em sua oração: Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face” (v.15 NVI). Essa declaração significa que o salmista tinha certeza que a única coisa que o Senhor faria era a coisa certa, a justiça! E por isso se dirigiu ao único juiz capaz de lhe ajudar: o próprio Deus.

Portanto, humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus, para que ele a seu tempo vos exalte, lançando sobre ele toda vossa ansiedade, pois ele tem cuidado de vós” (I Pedro 5.6-7)


[1] C.S. Lewis aborda o tema no primeiro capítulo de seu livro Lendo os Salmos (Viçosa-MG: Ultimato, 2015).

[2] Divisão do autor. Alguns comentaristas e teólogos podem dividir de maneiras diferentes, mas de modo geral seguem uma divisão semelhante.

O padrão de justiça do discípulo de Cristo

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem,  para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”.

Mateus 5:43-48

Introdução

Jesus começou seu ministério com uma mensagem simples e poderosa: “Arrependam-se, pois o Reino dos Céus está próximo” (Mateus 4.17). Para que ele exigisse arrependimento, contudo, Jesus sabia que era necessário mostrar qual era o novo modo de vida que Ele estava propondo. Encontramos esse novo padrão de vida proposto por Jesus nas belíssimas palavras  de seu sermão conhecido como Sermão do Monte (nos capítulos 5 a 7 do evangelho de Mateus): o novo modo de viver pregado aqui por Cristo inclui, entre outras coisas, a afirmação de que os pobres de espírito, os humildes, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores e os perseguidos por causa de Jesus são “bem-aventurados”.  Depois de dizer isso,  Jesus declara algo que mudaria a maneira como a religião da época enxergava a Lei de Deus : “Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus” (Mateus 5.20). O que poderia significar ter uma justiça que excede, ou seja, que é superior à justiça dos fariseus e mestres da lei?

Para responder essa pergunta, contudo, é necessário entender quem eram os fariseus e mestres da Lei. De forma resumida, os fariseus eram considerados os guardiões da Lei, eram conhecedores e estudiosos da lei de Moisés. Eles cumpriam os preceitos da Torá (Antigo Testamento), tanto os dez mandamentos quanto os que eles mesmos “formulavam” por meio de suas interpretações (queriam que todos praticassem mais de 600 leis que surgiram de acordo com a interpretação que faziam da Torá). Já os mestres da Lei eram aqueles que praticavam a lei de modo literal, sendo tão zelosos quanto os fariseus. Considerando essa descrição, como seria possível ter uma justiça superior a desses caras? Se eles eram tão rigorosos com a Lei, como os discípulos de Jesus poderiam ser ainda melhores do que eles? Como agir superando um limite tão alto?

Antes de chegar ao nosso objetivo, que é entender a passagem de Mateus 5.43-48, é importante dar uma olhada no que Jesus disse logo depois de dar essa ordem aos discípulos. Primeiro, Ele condena o fato de que naquela época os religiosos judeus julgavam os que cometiam assassinato com base no sexto mandamento (“não matarás”), mas não julgavam a atitude de se irar contra alguém ou de zombar de seu semelhante. Segundo Jesus, o mandamento que nos proíbe de assassinar alguém não significa apenas que seja errado tirar a vida (física) de alguém, mas também que é pecado “matar” alguém dentro de nós por meio da ira ou atacar alguém por meio de zombaria (Mateus 5.21-22).  Depois, Ele direciona sua fala contra aqueles que condenam fortemente o adultério, mas se esquecem de que desejar com os olhos alguém que não seja seu cônjuge é igualmente abominável diante de Deus (5.27-38). Em suma, Cristo estava atacando a hipocrisia dos líderes religiosos da época, que insistiam em olhar apenas para as ações exteriores, ignorando as atitudes e pensamentos do coração. Além disso, o mestre ainda traz uma outra “novidade” aos olhos dos religiosos: nunca se deve devolver com a mesma moeda àqueles que nos fazem mal, antes, devemos oferecer “a outra face” (Mateus 5.38-42).

E o que tudo isso quer dizer, afinal? De modo claro, Jesus está afirmando que o zelo que os fariseus e mestres da Lei tinham pelos mandamentos estava errado , pois pensavam que a Lei de Deus se tratava apenas de ordens e regras de agir exterior. Para Jesus, a interpretação que estes religiosos faziam da Lei de Deus estava no mínimo incompleta. Portanto, os discípulos de Cristo devem procurar agir muito além dessa interpretação errônea dos fariseus e mestres, porque a Lei se trata também – e principalmente – das atitudes internas do nosso coração. Jesus estava declarando que os mandamentos divinos devem guiar não só o que fazemos, mas também cada pensamento que temos. Entendendo bem isso,  chegamos [finalmente] à passagem específica que é base para este artigo.

Partindo da mesma ideia que permeia todo o texto de Mateus 5.20 até o final do capítulo, a saber, de que é necessário que os discípulos superem a justiça dos religiosos, Jesus expõe o que me parece ser o maior dos desafios para que seus seguidores tenham essa justiça que é superior a dos Fariseus e mestres da lei:

 

Os discípulos de Cristo devem amar os seus inimigos

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” – v.43-44

A justiça vigente entre os judeus era a de que deviam amar o próximo como a si mesmo (Levítico 19.18), mas ela não incluía amar os seus inimigos. Para os hebreus, esse mandamento abrangia somente “os patrícios judeus”¹. É importante, contudo, percebermos que a máxima “odeie o seu inimigo” não se encontra no Antigo Testamento, demonstrando que essa atitude (de odiar os inimigos) era normalmente aceita naquela época pelos judeus, mas não era um mandamento divino, o que prova quão distorcida era a interpretação dos Fariseus e mestres sobre a Torá.

Os discípulos de Cristo, diferentemente dos religiosos, devem dar um passo a mais, superar a justiça comumente aceita e direcionar seu amor também aos inimigos, além e apesar de seus próprios sentimentos. Nesse ponto, temos que  perguntar: Os cristãos têm inimigos? Um discípulo de Cristo pode ter inimigos?

Jesus pressupõe, em suas palavras, que o cristão não é inimigo de ninguém e que não deve direcionar ódio a ninguém (Mateus 5.21-22). Os cristãos não são, portanto, inimigos de nenhum ser humano, nem de nenhum grupo específico de seres humanos. Os que perseguem os cristãos podem considerá-los seus inimigos, mas Cristo ordena que seus discípulos amem seus perseguidores e que orem por eles. Eles se opõem aos cristãos e, em resposta, os cristãos os amam! Nunca odeiam de volta!

Ainda que existam pessoas que persigam os cristãos e que sejam inimigos de sua fé, o apóstolo Paulo afirma que “a nossa luta não é contra seres humanos (carne e sangue), mas contra os poderes e autoridades, dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais” (Efésios 6.12). Então, mais uma vez o Novo Testamento demonstra que os cristãos não podem considerar nenhuma pessoa como seu inimigo, antes, devem devolver amor a qualquer ódio que seja lançado contra eles. Dietrich Bonhoefer² afirma, em seu livro Discipulado, que

no Novo Testamento, inimigo é sempre aquele que é contra mim. Jesus não conta com a possibilidade de que seu discípulo pudesse ser inimigo de alguém. O amor do discípulo de Jesus cabe tanto ao inimigo como ao irmão. A ação do discípulo não deve ser determinada pela conduta do ser humano, mas pela ação de Jesus para com ele. A resposta do discípulo às ações humanas tem apenas uma origem: a vontade de Jesus.³

  • Nosso inimigo é nosso próximo também!

Certa vez, alguém perguntou para Jesus: “quem é o meu próximo?”.  Por meio da parábola do Bom Samaritano (Lucas 10.25-37), Jesus responde que nosso inimigo também é o nosso próximo. Os samaritanos eram descriminados pelos judeus e, na parábola que Jesus apresenta, é justamente um samaritano, um “inimigo” dos judeus, o único que se dispõe a ajudar o homem que havia sido assaltado e agredido.

Então, a resposta à pergunta “os cristãos têm inimigos? ” é: NÃO! Na verdade, o único inimigo de fato dos cristãos é o diabo (“estejam alertas e vigiem. O Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar” – 1 Pedro 5.8). Ainda que muita gente vá lutar contra o avanço da fé cristã, os discípulos de Jesus nunca podem considerá-los como inimigos e nem os odiar. Nosso dever, como cristãos, é amá-los e orar por eles, ainda que alguns possam nos considerar inimigos.

 

Os discípulos de Cristo amam os seus inimigos para demonstrar que são filhos de Deus

“…para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos.” – v.45

Ao falar de amor aos inimigos, Jesus está enfrentando abertamente não só os religiosos daquela época, mas também a cada um de nós e nossa forma de pensar hoje. Ele não ordena somente que amemos aqueles que nos odeiam e nos perseguem, como também afirma que agir assim demonstra que somos filhos de Deus! E, segundo Jesus, isso é verdade porque o próprio Deus derrama seu amor aos “bons e maus”:

Porque Ele faz raiar o seu sol sobre os maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” – v.45b

“ele é bondoso para com os ingratos e maus” – Lucas 6:35c

Estes dois versículos estão dizendo que Deus está, neste exato momento, cuidando de nós e Ele também está, neste exato momento, cuidando daqueles que não o amam e não creem nEle. É interessante que o texto enfatiza que o sol que Deus faz nascer sobre bons e maus é DELE. Ele dá, a todos sem distinção, aquilo que lhe pertence e que seria totalmente justo caso ele decidisse não o fazer.

  • Os cristãos também eram inimigos de Deus e Ele os amou:  

“Antes vocês estavam separados de Deus e, em suas mentes, eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês.”  (Colossenses 1:21)

“Deus prova o seu amor para conosco em que, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós” (Romanos 5.8).

  • O cristão não deve nada a ninguém a não ser o amor:

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama o seu próximo tem cumprido a Lei” (Romanos 13.8)

O seguinte trecho escrito no primeiro século pelo apóstolo Paulo em sua carta aos cristãos de Roma exclui a necessidade e a possibilidade de vingança e justiça com as próprias mãos e demonstra que a única forma de vencer o inimigo é pelo amor:

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoe […]. Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos.
Façam todo o possível para viver em paz com todos. Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: “Minha é a vingança; eu retribuirei”, diz o Senhor. Pelo contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem. (Romanos 12:14 e 17-21)

Os discípulos de Cristo amam os seus inimigos para demonstrar que são filhos de Deus, pois, afinal, os filhos gostam de imitar seus pais. No caso do cristão, se “Deus é amor” (1 João 4.8), então a única atitude possível é tentar imitar esse amor!

 

Os discípulos de Cristo devem fazer mais do que o que todo mundo faz

“Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso!” – v.46-47

Aqui, Cristo reforça seu desejo de que seus seguidores agissem para além do padrão, para além do que era normalmente feito e aceito por todos. Enquanto todo mundo ama os seus amigos e parentes, o cristão deve fazer isso e ainda mais: deve amar também os que o odeiam. Afinal, todo mundo ama só quem lhe faz bem, mas como minha mãe dizia: “você não é todo mundo” (rsrs).

Se o discípulo de cristo faz somente o que todos fazem, somente o que o padrão manda, então ele não faz nada demais (v.46-47). O cristão, contudo, não faz mais do que o comum porque ele é melhor do que os outros ou para mostrar superioridade. Na verdade, ele sabe que também já foi um inimigo de Deus e que só se tornou um amigo e servo de Cristo pela graça, por meio da fé e não por obras ou merecimento (Efésios  2.8-10). Ao invés disso, o cristão ama o inimigo exatamente por causa do amor de Deus pelas pessoas que Ele mesmo criou. O amor é a marca do cristão e amar ao próximo e aos que são inimigos é demonstrar ao mundo o amor de Cristo.

Jesus, nos versículos de 39 a 42 de Mateus 5,  nos ensina o que é amar os inimigos:

* Oferecer a outra face quando alguém nos ferir (v.39)

* Não ser resistente quando te processarem e quiserem te tirar algum bem (v.40)

* Andar a segunda milha quando nos forçarem a caminhar a primeira (V.41)

* Emprestar (sem virar as costas) a quem pedir emprestado (v.42).

Amar os inimigos pode parecer para o mundo uma atitude passiva demais, burra demais… Mas não é! Essa é a forma como os cristãos vencem suas batalhas: pelo amor  de Cristo! Nunca pelo ódio!

 

Conclusão

Qual é, por fim, o padrão superior ao dos Fariseus e mestres da lei do qual Jesus fala? Em suma, o que significa superar a justiça dos líderes religiosos daquela época? Cristo responde no versículo 48: “Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”. Com base nas palavras de Jesus, entendemos que o cristão supera a justiça comum quando faz mais do que o que todo mundo faz! Essa justiça que supera o modo de agir dos Fariseus e mestres da lei é a justiça da perfeição do caráter de Deus! Enquanto o padrão comum do mundo e até dos religiosos é “ame os que te fazem bem”, o amor que Jesus requer de seus discípulos vai muito além desse padrão: “ame aqueles que te odeiam! ”. O nosso padrão de espiritualidade, de amor, de agir e de viver é a perfeição e a santidade de Deus! E essa perfeição diz respeito não só ao nosso agir externo, mas também e principalmente ao nosso interior, ao nosso coração. A pergunta não é somente se estamos agindo bem, mas se o nosso modo de pensar é bom. Estou odiando meus semelhantes? Eu amo somente os que me amam? Estou fazendo só o que o padrão manda fazer?

Essas perguntas devem nos fazer refletir. Ou melhor, a perfeição do amor Deus pelos seus filhos e também por aqueles que ainda não O aceitaram deve trazer reflexão ao coração. Afinal, como dissemos anteriormente, os que já encontraram Jesus Cristo e receberam a libertação dos pecados, sabem que um dia foram inimigos de Deus e que Ele, por sua infinita graça e misericórdia,  nos amou e nos tornou não apenas servos, mas também amigos de Deus. Portanto, abandonando o padrão baixo da religião e do mundo, adotemos o padrão mais elevado de amor que já existiu: o amor de Cristo!

 


Referências e notas:

¹BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2009, p.1560.

² Dietrich Bonhoeffer era pastor luterano e teólogo, foi preso em 1943 por participar de um motim para assinar Hitler.  Após dois anos preso, foi enforcado em 1945 pelos nazistas.

³ BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2016, p.114.

* Este artigo é uma adaptação de um sermão.

Salmo 16: A teologia da satisfação

Neste salmo, temos diante de nós uma pessoa satisfeita. Não sabemos se o salmista tinha bens e riquezas ou se tudo estava indo muito bem na sua vida diária, mas não há como negar que essa oração registra uma satisfação imensa de alguém que considerava Deus o seu maior bem: “Tu és o meu Senhor; além de ti não tenho outro bem” (v.2). Por quantas dificuldades poderia estar passando o salmista no momento em que escreveu essa oração? Ainda que não seja possível descobrir a resposta para essa pergunta, a poesia mostra que a alegria do salmista era transbordante (v.9) simplesmente pelo fato de ter e de pertencer a Deus, não pelo que tinha ou pelas circunstâncias que o cercavam.

Senhor, tu és a porção da minha herança e do meu cálice; és tu quem garante o meu destino” (v.5)

Talvez muitos dos meus leitores não conheçam Deus e não façam muita questão de pertencer a Ele (e de tê-lo como bem maior). Não é possível, contudo, ignorar as afirmações tão belas e cheias de significado que este autor faz sobre a alegria que é estar com Deus. Só existem duas conclusões ao lermos as palavras do poeta: ou ele é uma pessoa louca ou teve uma experiência com esse Deus. Uma experiência que o transformou na pessoa mais segura do mundo. Afinal, quem tem a certeza de que nunca será abalado a não ser aquele que tem sempre o Senhor diante dele? (v.8).

Muitos anos separam a composição deste salmo da vida que o apóstolo Paulo viveu dedicada a Jesus, mas é de sua autoria algumas das palavras mais fortes sobre o que é estar satisfeito somente pelo fato de servir a Deus:

…já aprendi a estar satisfeito em todas as circunstâncias em que me encontre. Sei passar necessidade e sei também ter muito; tenho experiência diante de qualquer circunstância e em todas as coisas, tanto na fartura como na fome; tendo muito ou enfrentando escassez. Posso todas as coisas NAQUELE QUE ME FORTALECE” (Filipenses 4.11-13)

 Entenda, minha intenção aqui (e também do salmista) não é de afirmar que se você não vive diante de Deus o tempo todo, não terá momentos de alegria. É certo que o mundo que o Criador fez esta cheio de belas coisas e momentos que nos deixam felizes. Contudo, a intenção do salmista (e minha também, é claro) é registrar, por meio de uma oração, que na presença do Senhor existe alegria plena! Somente quem um dia foi alcançado pelo amor e graça de Cristo sabe o que é ser feliz eternamente, independente das circunstâncias, já no tempo presente!

“Tu me farás conhecer o caminho da vida; na tua presença há plenitude de alegria; à tua direita há eterno prazer” (v.11)